A pergunta costuma chegar devagar. A criança que aprendeu a ler sozinha olhando placa de rua. A que corrige o adulto sobre dinossauros, planetas ou bandeiras. A que faz uma pergunta no jantar que ninguém da mesa sabe responder. E, junto, a dúvida que todo pai e toda mãe têm medo de dizer em voz alta: "Será que é coisa da minha cabeça?"
Eu passei por isso como pai e, depois, descobri que a pergunta também valia para mim. Este texto junta o que eu gostaria de ter lido no começo: o que a lei brasileira chama de altas habilidades, que sinais costumam aparecer, por que não é só uma questão de QI e quem faz a avaliação.
O que é altas habilidades/superdotação, segundo a lei
No Brasil, o termo oficial é altas habilidades/superdotação (AH/SD). As normas da educação descrevem esses estudantes como os que têm potencial elevado e grande envolvimento com uma ou mais áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, liderança, psicomotora, artes e criatividade (Resolução CNE/CEB nº 4/2009, art. 4º, III).
Repare em duas coisas. A primeira é que não existe "superdotação psicossocial" ou "motora" como tipos separados, como muitos textos da internet repetem (e como a versão antiga deste post dizia). As áreas da lei são as cinco acima. A segunda é a palavra envolvimento: não basta ter facilidade, é preciso que a criança se dedique de verdade àquilo.
Essa ideia vem do modelo mais usado nas escolas e nos núcleos de atendimento do país, o dos Três Anéis, do pesquisador americano Joseph Renzulli. Para ele, o comportamento superdotado aparece onde três coisas se encontram: habilidade acima da média numa área (não necessariamente em todas), envolvimento com a tarefa e criatividade.
Sinais que costumam aparecer em casa
Nenhum sinal isolado identifica AH/SD. O que chama a atenção é um conjunto de sinais intensos e persistentes, comparados com outras crianças da mesma idade:
- Curiosidade que não acaba: perguntas em cadeia, e perguntas de "por quê" sobre coisas que adultos não questionam.
- Aprendizagem rápida: entende na primeira explicação e se irrita com a repetição.
- Leitura ou cálculo precoces, às vezes aprendidos sozinho.
- Memória detalhada de lugares, fatos e conversas.
- Interesses profundos e duradouros, que viram especialidade (dinossauros, espaço, mapas, Lego, xadrez).
- Vocabulário e humor de criança mais velha, ironia incluída.
- Senso de justiça forte e incômodo com regras que parecem arbitrárias.
- Perfil irregular: brilhante em matemática e com a letra ilegível, leitor voraz e desastre no futebol.
Um ponto que a versão antiga deste texto colocava na lista, a alta sensibilidade emocional, merece cuidado. Muitas famílias relatam, e eu vejo em casa. Mas as meta-análises mostram que, entre as chamadas sobre-excitabilidades, a emocional é a que tem a menor associação com a superdotação. Ela é real e merece atenção, só não serve como critério.
Três mitos que atrapalham
"É só fazer um teste de QI." O QI ajuda, mas não decide sozinho. Uma criança com QI altíssimo e nenhum envolvimento pode não mostrar comportamento superdotado na escola, e uma criança muito criativa e obstinada pode passar despercebida num teste. Por isso a identificação no Brasil junta várias fontes.
"Se é superdotado, vai bem na escola sozinho." Muitos vão mal. Tédio, perfeccionismo e falta do hábito de se esforçar, porque tudo sempre foi fácil, aparecem cedo. Algumas crianças têm ao mesmo tempo AH/SD e TDAH, dislexia ou autismo, a chamada dupla excepcionalidade, e uma condição pode esconder a outra.
"Sem laudo, a escola não precisa fazer nada." O MEC já orientou que o laudo médico não é imprescindível para o atendimento educacional especializado (Nota Técnica nº 04/2014/MEC/SECADI). A identificação é, antes de tudo, um processo pedagógico, que considera a observação da escola e a escuta da família.
Como é a avaliação, na prática
- Observe e anote. Exemplos concretos com data valem mais do que impressões: "aos 4 anos montou um quebra-cabeça de 500 peças sozinho".
- Converse com a escola. Peça que o professor observe também. A LDB (arts. 58 e 59) inclui estudantes com altas habilidades no público da educação especial, com direito a currículo, métodos e recursos adequados e até aceleração de estudos. Se precisar de ajuda nessa conversa, leia como defender seu filho superdotado na escola.
- Procure uma avaliação. Testes de inteligência são de uso privativo do psicólogo no Brasil. Prefira um profissional (psicólogo ou neuropsicólogo) com experiência em AH/SD, porque a avaliação também precisa olhar criatividade, envolvimento e possíveis condições associadas.
- Conheça o NAAH/S do seu estado. Os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação foram criados em 2005 pelo MEC em parceria com as secretarias estaduais e podem orientar a família e a escola. Vale confirmar se o núcleo do seu estado está ativo.
E se for?
Não muda quem seu filho é. Muda o que ele precisa: desafio na medida, gente com quem conversar sobre os assuntos que ama, e adultos que entendam que facilidade em uma área não significa facilidade em tudo. Para entender o lado emocional e os desafios, este texto pode ajudar: superdotação como neurodivergência.
Eu escrevi um livro digital para esse primeiro momento, Sou AHSD, e aí?, que está no Combo AHSD junto com outros três livros para pais e educadores (emoções, perfeccionismo e projetos). É o material que eu gostaria de ter tido quando a pergunta chegou aqui em casa.
Fontes
- BRASIL. Lei nº 9.394/1996 (LDB), arts. 58 e 59.
- BRASIL. CNE/CEB. Resolução nº 4, de 2 de outubro de 2009, art. 4º.
- BRASIL. MEC/SECADI. Nota Técnica nº 04/2014: orientação quanto a documentos comprobatórios de alunos com deficiência, TGD e altas habilidades/superdotação no Censo Escolar.
- RENZULLI, J. S. (1978). What makes giftedness? Reexamining a definition. Phi Delta Kappan, 60(3), 180–184.
- Giftedness and overexcitability: investigating the relationship using meta-analysis (2016). Gifted Child Quarterly. doi:10.1177/0016986216657588
